Sabemos
que uma das mais bem-sucedidas formas de organização social criadas pelas
sociedades humanas foi o Estado-nação, capaz de engendrar formas de identidade
e desenvolver mecanismos de adaptação e hegemonia territorial e histórica entre
seus cidadãos e perante os estrangeiros. Em razão disso, sustenta Octavio Ianni
que nas ciências sociais predominam os estudos “do caráter nacional, destino
nacional, projeto nacional, teatro nacional, música nacional, cinema nacional”
(Octavio Ianni, Enigmas da
modernidade-mundo)
Mas
o que é uma nação senão uma forma de estabelecer relações de proximidade e
distância, identidade e estranhamento, promovendo sentimentos de pertencimento
e exclusão em relação a uma entidade abstrata e simbólica, que é o Estado? Esse
modelo de administração geopolítica, que teve início com a Modernidade e foi
responsável pelo desenvolvimento do capitalismo, se espalhou pelos diversos
continentes. Baseia-se na força bélica, no conjunto de ordenações determinadas
pela Constituição, no estabelecimento de fronteiras espaciais e no sentimento
mútuo de inclusão/exclusão – ou se pertence a uma nacionalidade ou se pertence
a outra. A identidade dos cidadãos com a nação floresce graças às políticas culturais
e educativas que afirmam e oficializam a unidade linguística da nação e criam
um imaginário comum que os aproxima – é a cultura nacional que se impõe,
enfraquecendo as diferenças regionais.
As
culturas nacionais foram soberanas por quase cinco séculos, estabelecendo
fronteiras rígidas às formas de viver, comportar-se e sentir dos povos no
mundo, impondo-se sobre as populações para além das diferenças étnicas,
religiosas e mesmo linguísticas. A formação de impérios coloniais expandiu as
culturas metropolitanas pelos territórios colonizados, provocando o
enfraquecimento das culturas nativas. Toda essa hegemonia levou ao
fortalecimento dos nacionalismos e de suas formas de identidade cultural,
tornando-se sentimento predominante sobre outros sentimentos de pertencimento.
[...]
A
partir da década de 1990, porém, a força dos Estados-nacionais foi
profundamente abalada por diversos fatores: a descolonização do mundo, que deu nova força aos grupos étnicos e
às culturas nativas; o neoliberalismo,
que colocou os interesses de mercado acima dos protecionismos nacionais; a
intensa migração de povos pelo mundo e a globalização,
que acelerou a troca de informações, mercadorias e mensagens entre nações e
continentes. Todos esses processos
enfraquecem o Estado como força aglutinadora de nações, levando à
multiplicação de formações culturais no interior de diversos países, promovendo
o embate, a troca de influências e o convívio entre culturas díspares. O
resultado foi o reconhecimento do direito de existência de culturas
minoritárias no interior das culturas nacionais e o crescente apego dessas
minorias às suas tradições originais. Assim, as culturas nacionais sofrem um duplo
golpe nesse momento histórico, chamado por muitos de pós-nacional – por um lado, assistem ao fortalecimento das culturas locais e regionais; por outro, sentem a
potencia de uma cultura nova globalizada,
que estimula a formação de grandes blocos e corporações de âmbito mundial. De
um lado reforça-se o localismo, de
outro, o cosmopolitismo.
Adaptado. Cristina Costa. Sociologia: Questões da atualidade.
Gostei do texto, me ajudou bastante.
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