segunda-feira, 27 de junho de 2016

Emprego: o problema é seu /// Perda de trabalho, Perda de identidade – Eugène Enriquez




Definitivamente, a noção de qualidade total é a noção de um mundo que não existe. Não pode existir um mundo totalmente racional, onde cada qual funciona bem, no tempo previsto, com os gestos necessários, sem sentimento, nem paixão.

A redução de pessoal acontece, mesmo quando as empresas estão funcionando bem. Uma companhia sueca, Eletrolux, suprimiu aproximadamente 100 mil empregos no mundo e 12 mil na matriz, porque o acionista principal queria um rendimento financeiro de 15% para as suas ações, rendimento esse que era de 9%, o que já muito bom, porque na Suécia não há inflação.

Numa situação assim, todos os assalariados, não importa qual seja o seu nível hierárquico, não sabem nunca se serão mantidos ou não no emprego, porque não é a riqueza econômica da empresa que vai impedir que exista redução de efetivo.

Vou dar o exemplo novamente da Peugeot e da Citroën, que conheço bem, na França. É uma empresa que está funcionando muito bem. Ela passa seu tempo a despedir as pessoas de maneira regular. Poderão permanecer na empresa apenas aqueles que são considerados de excelente performance.

Vocês sabem muito bem o que isso quer dizer, performance e excelência. Isso remete às pessoas ditas vencedoras. São aqueles que matam de maneira tranqüila, sem dó, "fritando" o semelhante, um outro profissional. Mata-se de verdade e a pessoa lesada não tem idéia, nem tem a impressão de que querem matá-la.

Isso é psicologização, na medida em que, se alguém não consegue conservar o seu trabalho, fala-se tranqüilamente: "você não soube se adaptar, você não soube fazer esforços necessários, não teve uma alma de vencedor, você não é um herói. Você é culpado e não a organização da empresa ou da sociedade. A culpa é só sua."

Isso culpabiliza as pessoas de modo quase total, pessoas que, além disso, ficam submetidas a um estresse profissional extremamente forte. Então as empresas exigem daqueles que permanecem um devotamento, lealdade e fidelidade, mas ela não dá nada em troca. Ela vai dizer simplesmente: "você tem a chance de continuar, mas talvez você também não permaneça."

Fonte: ENRIQUEZ, Eugène. Perda de trabalho, perda de identidade. In: NABUCO, Maria Regina, CARVALHO NETO, Antonio. Relações de trabalho contemporâneas. Belo Horizonte: IRT, 1999. (adaptado)

Para Márcio Pochmann, terceirização é a 'parte visível do iceberg'


Atividade econômica de alocação de mão de obra, a chamada terceirização causa, na opinião de pesquisadores e sindicalistas, a precarização das condições de trabalho não apenas para os terceirizados, mas para os contratados diretamente pela empresa. 
Para o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, a terceirização é a parte visível de uma transformação muito profunda do capitalismo. 
O economista considera que o esgotamento do modelo fordista de produção, representado pela padronização de atividades em uma linha de montagem, resultou em diferentes formas de uso do trabalho. Segundo ele, a partir dos anos 70, com o deslocamento crescente da produção de manufatura para a Ásia, deu-se o esgotamento deste processo.
O processo de terceirização está cada vez mais presente em todos os setores do trabalho, incluindo empresas privadas e também as públicas. Para Pochmann, essa cadeia de organização tem, nas repartições públicas, um papel facilitador de problemas de corrupção. "Pois sem concurso público o trabalhador terceirizado custa dez vezes mais que o contratado", pontua. Ainda, no entendimento de Pochmann, os sindicatos deveriam se reposicionar, considerando as formas contemporâneas de divisão do trabalho para que todos os trabalhadores possam ser representados.
Para Ricardo Antunes, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp, há um novo conjunto de movimentos sociais em um cenário de lutas globais muito duro. Segundo ele, é necessário, portanto, que os sindicatos comprometidos com trabalhadores e trabalhadoras tomem como desafio essas novas formas de divisão do trabalho.
"É preciso compreender essa nova morfologia do trabalho. Há uma nova configuração da forma de ser da classe trabalhadora. Eu acredito que combater profundamente a terceirização é imprescindível", considerou Antunes.
Sugestão de vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=TDCtYxfsCFM  (Prof. Ricardo Antunes (Unicamp) no Tribunal Superior do Trabalho – TST)

Patrimonialismo: O embaralhamento entre o público e o privado.



5.3 - Patrimonialismo

Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público. Assim, eles se caracterizam justamente pelo que separa o funcionário “patrimonial” do puro burocrata conforme a definição de Max Weber. Para o funcionário “patrimonial”, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para se assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos. A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades próprias. Falta a tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida no Estado burocrático. O funcionalismo patrimonial pode, com a progressiva divisão das funções e com a racionalização, adquirir traços burocráticos. Mas em sua essência ele é tanto mais diferente do burocrático, quanto mais caracterizados estejam os dois tipos. No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal.

O Homem Cordial



O “homem cordial”

“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Nada mais significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada ante um superior. Nosso temperamento admite fórmulas de reverência, e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo a possibilidade de convívio mais familiar. No domínio de linguística, para citar um exemplo, esse modo de ser parece refletir-se em nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos. A terminação “inho”, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração. À mesma ordem de manifestações pertence certamente a tendência para a omissão do nome da família no tratamento social. Em regra é o nome individual, de batismo, que prevalece. Essa tendência, que entre portugueses resulta de uma tradição com velhas raízes – como se sabe, os nomes de família só entram a predominar na Europa cristã e medieval a partir o século XII –, acentuou-se estranhamente entre nós.”

domingo, 14 de abril de 2013

Max Weber ( 1864-1920)


Dominação
Uma das questões colocadas à Sociologia é a que se refere à persistência das relações sociais. O que pode levar a que o conteúdo dessas relações ou elas próprias se mantenham? (...) Uma vez que Weber entende que o social constrói-se a partir das ações individuais, cria-se um problema teórico: como é possível a continuidade da vida social? A resposta para tais questões encontra-se no fundamento da organização social, chave do verdadeiro problema sociológico: a dominação ou a produção da legitimidade, da submissão de um grupo a um mandato.
A probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo a um certo mandato torna os conceitos de dominação e de autoridade de interesse para a Sociologia já que possibilitam a explicação da regularidade do conteúdo de ações e das relações sociais.
A dominação legitima pode justificar-se por três motivos de submissão ou princípios de autoridade – racionais, tradicionais ou afetivos. São portanto, três tipos de dominação legítima: a legal, a tradicional e a carismática. As formas básicas de legitimação justificam-se com base em distintas fontes de autoridade:

(...) a do “ontem eterno”, isto é, dos mores santificados pelo reconhecimento inimaginalmente antigo e da orientação habitual para o conformismo. É o domínio tradicional exercido pelo patriarca e pelo príncipe patrimonial de outrora.(...) A do dom da graça (carisma) extraordinário e pessoal, a dedicação absolutamente pessoal  e a confiança pessoal na revelação, heroísmo ou outras qualidades da liderança individual. É o domínio carismático exercido pelo profeta oi – no campo da política – pelo senhor de guerra eleito, pelo governante plebiscitário, o grande demagogo ou o líder do partido político. Finalmente, há o domínio da legalidade, em virtude da fé na validade do estatuto legal e da competência funcional, baseada em regras racionalmente criadas. Nesse caso, espera-se o cumprimento das obrigações estatutárias. É o domínio exercido pelo moderno servidor do Estado e por todos os portadores do poder que, sob este aspecto, a ele se assemelham.(...) (WEBER. A política como vocação. p .99)

Weber interessou-se pelas estruturas de dominação especialmente sob duas formas: a burocrática e a carismática. A primeira corresponde ao tipo essencialmente moderno de administração, racionalmente organizado, ao qual tendem as sociedades ocidentais e que pode aplicar-se tanto a empreendimentos econômicos e políticos quanto àqueles de natureza religiosa, profissional etc. Nela a legitimidade se estabelece através da crença na legalidade das normas estatuídas e dos direitos de mando daqueles que exercem a autoridade. Em oposição a ela, as duas outras formas ( tradicional e carismática) fundamentam-se em condutas cujos sentidos não são racionais. Em comparação com a carismática, a tradicional é mais estável. Mas, em certas circunstâncias, cada uma dessas formas de dominação pode converter-se na outra ou destruí-la. As formas de dominação tradicionais ou racionais podem ser rompidas pelo carisma que institui um tipo de dominação que se baseia na “entrega extracotidiana à santidade, heroísmo ou exemplaridade de uma pessoa e às regras por ela criadas ou reveladas” ( WEBER, M. A ciência como vocação, p.165)
Fonte: Quintaneiro, T (org). Um toque dos clássicos: Marx, Durkheim e Weber. 2°ed. Ed. UFMG, 2002. 

Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)


No estado natural o homem é bom. Assim é preciso distinguir o homem como deveria ser (estado natural), do homem que se transformou (evolução dos tempos devido a mudanças exteriores e ao progresso natural do homem). No estado de natureza não há desigualdade, esta foi construída socialmente, é produto do estado social.
Rousseau distingue dois tipos de desigualdade: a desigualdade natural ou física, por ser estabelecida pela natureza e que consiste na diferença de idades, da saúde, das forças do corpo e das desigualdades do espírito e da alma; a outra que se pode chamar de desigualdade moral ou política, por que depende de uma espécie de convenção e que é estabelecida, ou pelo menos autorizada, pelo consentimento dos homens. A desigualdade moral são os privilégios de uns para com os outros, sendo que não está essencialmente ligada a desigualdade natural.

Fonte: http://www.cdcc.usp.br

terça-feira, 2 de abril de 2013

John Locke (1632 -1704)

John Locke (1632 -1704), ao contrário de Hobbes, pode ser visto como um otimista em relação à natureza humana e ao convívio entre os indivíduos  [...]
Segundo a concepção de Locke, a sociedade resulta de uma reunião de indivíduos, visando garantir suas vidas, sua liberdade e sua propriedade, ou seja, aquilo que pertence a cada um. É em nome dos direitos naturais do homem que o contrato social entre os indivíduos que cria a sociedade é realizado, e o governo deve portanto comprometer-se com a preservação destes direitos. O poder é então delegado a uma assembleia ou a um soberano para exercer essa função em nome de uma união voluntária e consentida entre os indivíduos. A legitimidade desse poder reside, em sua origem, no consentimento dos indivíduos que o constituíram, e que podem portanto retirá-los daqueles que não governam no interesse da maioria ou que ameaçam a liberdade e os direitos dos indivíduos.