O
“homem cordial”
“Já
se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para civilização
será de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato,
a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos
visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na
medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos
padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano
supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São
antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e
transbordante. Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do
que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente
o contrário da polidez. No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo,
uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em
apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Nada mais
significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma
personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do
que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma
reverência prolongada ante um superior. Nosso temperamento admite fórmulas de
reverência, e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo
a possibilidade de convívio mais familiar. No domínio de linguística, para
citar um exemplo, esse modo de ser parece refletir-se em nosso pendor acentuado
para o emprego dos diminutivos. A terminação “inho”, aposta às palavras, serve
para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para
lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também
de aproximá-los do coração. À mesma ordem de manifestações pertence certamente
a tendência para a omissão do nome da família no tratamento social. Em regra é
o nome individual, de batismo, que prevalece. Essa tendência, que entre
portugueses resulta de uma tradição com velhas raízes – como se sabe, os nomes
de família só entram a predominar na Europa cristã e medieval a partir o século
XII –, acentuou-se estranhamente entre nós.”
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